Glúten e diabetes – estudo publicado pela Harvard

Análise de estudo científico da Harvard University

 

Em março de 2017 foi anunciado um estudo elaborado por pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, concluindo que pessoas que eliminaram o glúten da dieta estão mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2.Uma vez que o diabetes mellitus é uma patologia em ascensão no mundo, os olhares se voltam para as notícias que tragam alguma novidade.

Para analisar melhor esta publicação de tamanho vulto na mídia, é preciso deixar clara a conclusão do estudo e os pontos importantes, não abordados na pesquisa, uma vez que não se trata de um tema tão simples, e que possa estar afetando o dia a dia de milhares de pessoas. Para uma melhor compreensão,é preciso entender que todo estudo científico tem uma premissa a ser analisada e discutida, neste caso a relação gluten free (dieta sem glúten) x diabetes tipo 2. Durante a metodologia, discussão do artigo, são amplamente mostrados os caminhos que os autores percorreram para comprovar ou não a premissa inicial.

Neste caso, Geng Zong, pesquisador do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, analisou o consumo de glúten e a saúde de 200.000 pessoas, acompanhadas durante 30 anos. Nesse período, foram descobertos mais de 15.000 casos de diabetes tipo 2 entre os participantes.

Os resultados mostraram que quem consumiu mais de 12 gramas de glúten por dia, tinha menos risco de desenvolver diabetes tipo 2. Pessoas que ingeriram a maior quantidade de glúten tinham uma probabilidade 13% menor de desenvolver diabetes tipo 2 do que aquelas que consumiam a menor (até 4 gramas por dia).

Em suma, para o referido estudo, pessoas sem doença celíaca (este seria um caso necessário para a retirada do glúten da dieta) que eliminaram a proteína, acabaram consumindo menos fibras, e consequentemente se tornaram predispostas ao diabetes.

No entanto diversos estudos já foram enfáticos em mostrar a importante contribuição do carboidrato da alimentação no diabetes tipo 2. Uma contradição ao que se conclui no artigo de Geng Zong, dado que afirma-se que consumir glúten (alimentos feitos a base de farinha de trigo, cevada, centeio), é necessário para evitar o diabetes. E quais seriam senão os produtos a base de trigo, que por sua vez têm glúten na composição, os alimentos mais consumidos no mundo, inclusive por diabéticos?

Veja alguns dos estudos científicos abaixo que tratam do impacto do consumo de alimentos com alto teor de carboidratos na causa do diabetes e hipertensão:

  • Hussain TA, Mathew TC, Dashti AA, Asfar S, Al-Zaid N, Dashti HM. Effect of low-calorie versus low-carbohydrate ketogenic diet in type 2 diabetes. Nutrition 2012;28:1016–21.
  • Gross LS, Li L, Ford ES, Liu S. Increased consumption of refined carbohydrates and the epidemic of type 2 diabetes in the United States: an ecologic assessment. Am J Clin Nutr 2004;79:774–9.
  • Al-Khalifa A, Mathew TC, Al-Zaid NS, Mathew E, Dashti HM. Therapeutic role of low-carbohydrate ketogenic diet in diabetes. Nutrition 2009;25:1177–85.
  •  Dyson PA, Beatty S, Matthews DR. A low-carbohydrate diet is more effective in reducing body weight than healthy eating in both diabetic and nondiabetic subjects. Diabet Med 2007;24:1430–5.
  • Al-Khalifa A, Mathew TC, Al-Zaid NS, Mathew E, Dashti H. Low carbohydrate ketogenic diet prevents the induction of diabetes using streptozotocin in rats. Exp Toxicol Pathol 2011;63:663–9.
  • Dashti HM, Mathew TC, Khadada M, Al-Mousawi M, Talib H, Asfar SK, et al. Beneficial effects of ketogenic diet in obese diabetic subjects. Mol Cell Biochem 2007;302:249–56.
  • Taubes G. Good calories, bad calories. New York: Alfred A. Knopf; 2007.
  • Feinman RD, Volek JS, Westman E. Dietary carbohydrate restriction in the treatment of diabetes and Mmtabolic syndrome. Clin Nutr Insight 2008;34:1–5

Não seria o pão, a pizza, as torradas, bolachas, bolos, esfirras, coxinhas, macarrão, lasanha, exemplos de alimentos que contém glúten por utilizarem como ingrediente principal a farinha de trigo?

Se por um lado a retirada do glúten da dieta conforme afirma Geng Zong, propicia um diagnóstico de diabetes tipo 2, uma vez que quem pára de comer glúten passa a substituir de maneira geral, por farinha de arroz, e portanto não consome a quantidade necessária de fibras ao dia; por outro lado bastaria adicionar a quantidade necessária de fibras solúveis à dieta, de diversos alimentos que as contém. Não estaria aí a solução do problema?

Certamente. Existe de fato uma tendência natural à substituição de um alimento que se retira, por outro que possa trazer o mesmo efeito de “euforia” de volta. No entanto, a correta substituição é importante e deve ser realizada por nutricionista, para trazer o correto aporte de fibras à dieta após a retirada do glúten, como já se faz aos celíacos. O que não se deve ocorrer é deixar-se de lado o balanceamento nutricional adequado.

No entanto, a afirmação de que a retirada do glúten da dieta pode desencadear diabetes do tipo 2, somente é válida se as fibras forem abolidas junto com o glúten. Uma vez que bastaria adequar o aporte de fibras, o estudo trata das pessoas que não seguem orientação nutricional profissional, ou realizam dietas por conta própria. Algo que não necessariamente reflete a realidade.

Vamos refletir: de onde poderia vir tal tendência em provar que glúten faz bem à saúde, uma vez que até mesmo doenças neurológicas ele pode causar? E quanto ao carboidrato associado aos produtos que contém glúten como pães, massas, bolos, estes não causam mais diabetes se consumidos em excesso? Qual a razão destas descobertas tão significativas à saúde humana, estarem sendo deixadas de lado?

Estudos científicos são encomendados por entidades que se preocupam com a saúde humana, e por entidades que movimentam bilhões de dólares ao ano. Algo me faz pensar sobre a gigantesca indústria dos produtores de trigo, estar incomodada com os seguidores lowcarb, ou os que buscam alimentação de verdade!

Referência:

Geng Zong, Benjamin Lebwohl, Frank Hu, Laura Sampson, Lauren Dougherty, Walter Willett, Andrew Chan, Qi Sun

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